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Intróito
sábado, janeiro 10, 2004
  A Opinião Aceitável - Lamento, mas não vou saudar o regresso do «Flash-Back», agora na SIC-Notícias e em forma de «Quadratura do Círculo». Poderia, quando muito, saudar a felicidade do nome escolhido para o programa. Na verdade, tentar, com aqueles protagonistas, proporcionar um debate aberto, disponível para acolher a multiplicidade de opiniões inerentes a uma sociedade plural, é o mesmo que tentar a quadratura do círculo. Este é um vício que já vem da TSF e dos bons tempos da TSF. Sempre achei que aquela fórmula fechada do «Flash Back» era sufocante e claustrofóbica. Se até admito uma certa regularidade de presença do Pacheco Pereira e, vamos lá, do irritante José Magalhães, interrogo-me acerca do tempo de antena dado a Lobo Xavier. Ma quem é o Lobo Xavier? O que é que representa e qual é a originalidade do seu pensamento? E, no entanto, durante anos, lá esteve o Lobo e quem ouvia o programa não podia deixar de se interrogar acerca do porquê deste afunilamento do debate. Não poderia o terceiro elemento ser um convidado rotativo, exactamente para que se perceba que na sociedade portuguesa há mais mundo para além daquele, pequenino, que se esgota no leque de ideias defendidas por Lobo, Pacheco e Magalhães? O que se passou ao longo de anos no «Flash – Back» e agora se reproduz na «Quadratura do Círculo» é – atrevo-me a dizê-lo – perigoso. Porque cria a ilusão de um debate democrático quando os dados estão viciados à partida. Vale a pena recordar Noam Chomsky: «A forma inteligente de manter as pessoas passivas e obedientes é limitar o espectro da opinião aceitável, mas estimular muito intensamente o debate dentro daquele espectro… Isto dá às pessoas a sensação de que o livre pensamento está pujante, e ao mesmo tempo os pressupostos do sistema são reforçados através desses limites impostos à amplitude do debate».  
  Escritor é quem escreve? O quê? Ora Aqui está uma observação muito interessante, escrita do outro lado do Atlântico, mas facilmente transportável para as bandas de cá: «Jovens grandes autores não andam surgindo muito na Europa ultimamente, mas jovens subitamente populares surgem, em especial misturando em seus livros vida pessoal e ficção. Foi assim na França com Amélie Nothomb e Lolita Pille, agora é na Itália com Melissa Panarello. Aos 18 anos, ela já vendeu 500 mil exemplares de seu livro "Cem escovadas de cabelo antes de dormir". A receita é aquela: autora bonita + aventuras sexuais e trama um tanto bizarras + uma fusão de realidade e fantasia que funciona mais como marketing do que como ótima literatura, mas que sempre pode ter seu valor. O livro de Melissa já está sendo traduzido para outras línguas, mas ainda não tem editora no Brasil».  
segunda-feira, janeiro 05, 2004
  António Ramos Rosa - Nunca chegaremos ao dia em que diremos que tudo passou/ porque nesse momento algo estará ainda a passar/ e só a morte não é uma passagem porque é o abismo sem/ ponte para o outro lado que não existe/ Vivemos no contínuo anel do tempo inclemente ou suave/ e só o efémero pode abrir a sua corola transparente/ e espargir o pólen incandescente e fresco/ como se o mundo se derramasse em clara nascente/ e não fosse já o mundo mas a sua cintilante aparição// É então que a leveza de uma adolescente inocência/ nos inunda o peito e tudo o que sob a aparência se aboliu/ se eleva num júbilo de presença nua/ e a palavra surge como uma forma de luz e pura respiração 
quarta-feira, dezembro 31, 2003
  A Voz da Reacção Exemplo de uma atitude reaccionára? O grito de guerra da Rádio Comercial: «Menos Palavras, Mais Música». Porque a palavra tem lepra. A palavra é infecto-contagiosa. A palavra pode ter significados, visíveis e invisíveis. A palavra é o inimigo. O pessoal não precisa de palavras. O pessoal precisa é que lhe dêm música. 
terça-feira, dezembro 30, 2003
  Quem define a Agenda Política? Saber quem define a agenda política e porquê, começa a ser uma questão central na vida política portuguesa. Para mal da esquerda, nos últimos tempos tem sido claramente a direita a vencer este campeonato. A iniciativa política tem estado do lado da direita, mesmo se, na maior parte das vezes, se trata apenas de poeira para os olhos. É o caso da proposta de revisão constitucional, que toda a gente sabe não ter pernas para andar, mas pode dar para umas valentes horas de discussão ideológica. Sendo que, neste caso, a discussão ideológica é um pouco como estar a discutir o sexo dos anjos, porque não vai adiantar de nada e, ao mesmo tempo, evita-se que sejam discutidos os verdadeiros e reais problemas do país. O calendário político está a ser fixado pela direita. Por exemplo: a quem interessa estar agora a discutir eleições presidenciais? E porquê discutir agora estas eleições quando há tantas outras primeiro? Dominar a agenda política passa por colocar em cima da mesa questões alternativas e verdadeiramente importantes. Por exemplo: o novo código do trabalho é um assunto arrumado? Ou há muitas coisas que a esquerda tinha a obrigação de continuar a questionar? A questão do aborto está a ser bem colocada? OU deveria a direita ser confrontada com as quase pornográficas contradições das suas atitudes desde que foi feito o referendo? Ainda alguém se lembra das promessas que foram feitas para justificar o «não»? Como diria o outro: Era Bom que Trocássemos umas Ideias sobre o Assunto. 
segunda-feira, dezembro 29, 2003
  A Armadilha A direita portuguesa é rancorosa. Tão rancorosa que, de há uns anos para cá, não se cansa de o demonstrar de forma ostensiva. A direita portuguesa não gosta – nunca gostou - do 25 de Abril. É preciso reafirmá-lo, mas retirar todas as consequências do que fica contido numa frase como aquela. Não gostar do 25 de Abril não se resume a um evidente desprezo pela ideia de festa contida na data. O ódio está para além da festa, porque o 25 de Abril representa um conteúdo específico traduzido na conquista das liberdades e da democracia. Ou seja, a direita portuguesa não se incomodaria muito se nunca tivesse havido um 25 de Abril. É isso o que está subjacente às patéticas propostas de revisão constitucional avançadas pelo partido de Paulo Portas. O que não espanta. Espantosa poderá ser a posição de alguns sectores do PSD. Mas será mesmo? Ou é mentira que muita gente se filiou no PSD por entender que tinha ali mais hipóteses do que no então CDS de fazer vingar um determinado projecto político e ideológico? Ou é mentira que esse projecto, no essencial, poderia ser subscrito por qualquer dirigente do CDS? Qual é, então, a diferença entre uma parte do PSD e o PP? E qual vai ser o papel do PS no meio disto tudo? (Lá iremos, porque gostava muito de ver o Barnabé pronunciar-se sobre isto. Se é que ele me lê...  
domingo, dezembro 21, 2003
  Recordar é Viver, mesmo Abruptamente Ele há coisas. A primeira versão do meu Intróito desapareceu há tempos da rede. Nunca percebi porquê. Um dos textos que lá estava era este, sobre o multifacetado Pacheco Pereira. Não sei porquê, mas já que o recuperei - graças a uma ocasional passagem pelo Dizer Bem - aqui vai ele de novo... outubro 05, 2003 Abruptamente ideológico Valdemar Cruz, no Intróito, destaca a oportunidade do trabalho que António Guerreiro dá à estampa, esta semana, no «Actual/Expresso» (pág.54 e 55) e, como bom observador, lembra que "não há, na imprensa portuguesa, muitos textos aos quais valha a pena voltar, para uma leitura mais cuidada, ou para que melhor se perceba a dimensão do pensamento proposto". Diz o experiente jornalista que "o artigo de António Guerreiro... é uma dessas raras excepções, pelo modo como analisa o fenómeno da proliferação de blogs em Portugal e, em particular, pelo desassombro com que ousa beliscar o que parece intocável: o Abrupto, do deputado do PSD José Pacheco Pereira. "Recupero aqui - diz Valdemar Cruz - um excerto, que não dispensa a leitura da totalidade do artigo: «Aquilo que Pacheco Pereira representa no território dominante dos clérigos da opinião é uma criação específica do nosso espaço público, não poderia existir senão em Portugal. «À primeira vista, o seu blog parece uma tentativa de ‘desjornalizar’ a sua escrita e de entrar no campo mais afável do discurso cultural e do apontamento pessoal. Mas há algo de mais jornalístico, nos nossos dias, do que estas deambulações sócio-político-culturais, em formato magazinesco, servidas por um político? Não há». «Fiz questão de escrever por extenso o que António Guerreiro resumiu num único adjectivo: onde ele diz «político», eu escrevo «deputado do PSD». Poderia ser do PS, do PCP ou do BE, que a linha de raciocínio seria a mesma. «O Pacheco Pereira é provavelmente o único «bloger» profissional do espaço português. Isto, no sentido em que o tempo dedicado pelo eurodeputado a rechear o seu «blog», mais que um passatempo, mais que um «hobby», mais que a satisfação de uma inocente apetência pessoal para comunicar com os outros, constitui uma tarefa político-partidária com a mesma importância de qualquer outra a que se dedique no parlamento europeu. «O Abrupto não constitui uma ocupação de tempos livres. O Abrupto é todo um programa ao serviço de uma estratégia política e ideológica bem definida, feito sob a capa de uma aparente tolerância, mas transformado num espaço tendencialmente totalitário. Isto porque, ao pretender assumir-se como «a» referência dos blogs portugueses – e, não por acaso, o próprio Pacheco Pereira fez questão, há dias, de anunciar que o seu blog está no «top» de preferências - o Abrupto proporciona ao deputado do PSD uma desproporcionada ocupação do espaço comunicacional, que passa ainda por uma presença assídua nos jornais, porventura nas rádios e agora também na televisão. «Há, no entanto, um aspecto que me intriga. O unanimismo suscitado pelo Abrupto é compatível com uma certa radicalidade de pensamento cultivada por Pacheco Pereira? Ou esse posicionamento radical começa a transformar-se em pouco mais que uma pose? «À direita – ele diz que não é de direita – Pacheco Pereira aparece como o rosto de uma heterodoxia que claramente entusiasma e cativa alguns sectores de uma certa esquerda (digamos assim). «Só ainda não percebi se o que cativa é a forma como Pacheco Pereira sabe expor o mais reaccionário dos pensamentos, ou se é mesmo ao conteúdo das suas propostas que devemos atribuir a audiência de que usufrui . «A ser verdadeira a segunda das hipóteses, e como o pensamento radical é, por definição, minoritário, estaremos perante um paradoxo que talvez o eurodeputado, licenciado em Filosofia, possa explicar. É que, ou eu estou a ter acesso a uma cópia desfocada, ou há aqui algo que não bate certo.»  
  Peço a Palavra O Frank Capra realizou no final dos anos 30 um filme fabuloso. Será dos poucos cujo título em português supera de longe o original, pela sua concisão e pela notável capacidade de resumir a essência do que está em causa. Um inócuo «Mr. Smith Goes to Washington» foi traduzido para «Peço a Palavra». Ontem, numa involuntária paragem do DVD - comprado há dois dias por nove euros, na FNAC, e com uma enorme galeria de extras!!!) - dei comigo a ver o que já nunca vejo: os chamados «telejornais» das televisões portuguesas. E o que vi? Imagens nocturnas de uma corrida tão louca como patética de supostos jornalistas montadas em motos potentíssimas. Que faziam? Corriam Lisboa atrás de uma carrinha com um presidiário dentro. Um dos suspeitos do já insuportável caso «Casa Pia». O que mostravam? Nada. Qual o valor informativo de tão arrojada operação? Zero. Qual o conteúdo jornalístico e qual a importância daquelas imagens para o esclarecimento do público? Zero absoluto. Qual a importância daquela encenação no contexto de uma televisão-espectáculo? Toda a importância. Aquilo, sim, é espectáculo. Mas aquilo não é informação. Regressei à poderosa interpretação de James Stewart em «Peço a Palavra». Regressei a um filme que, podendo ser espectáculo, é um notável documento informativo-formativo. É uma lição de cidadania e uma lição de democracia. Mas era apenas um filme.  
quarta-feira, dezembro 10, 2003
  A Dor A dor da fuga, a dor da ausência, a dor da destruição, a dor do sangue que corre, a dor dos olhares perdidos, a dor dos corpos cansados, a dor dos impotentes, a dor do que não esquece, a dor do que dolorosamente nos destrói. O exílio. O caminho para o infinito. O longe transformado em tragédia. O longe. O exílio. A dor. 
  De Repente Canta! canta, porque cantar é a missão do poeta E dança, porque dançar é o destino da pureza (Vinícius de Morais -Balada Feroz
A voragem dos dias reserva-nos instantes fugazes durante os quais podemos esboçar o começo de algo, o princípio de tudo, o desejo de nada. Isso é o Intróito, Blogue dinamizado por Valdemar Cruz valdemarcruz@portugalmail.pt

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